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Sábado, Novembro 15, 2008
10:40 PM

Nota do Autor: Recomendo a leitura de baixo para cima visto que os textos são complementares.


Capítulo Seis: Aniversário.


26 de Março de 2007, Segunda-Feira. - Centro da Cidade de São Paulo.



- Duas esfihas de queijo - disse Ju
- Mais alguma coisa senhorita? - perguntou o garçom, querendo sair da mesa.
- Não, não - respondeu despretensiosamente e olhou mais uma vez o celular, para ver a hora.
- Ju, por que você olha tanto o celular? Esperando alguém ligar? - perguntou Bruna, a ruivinha, com risadinhas ao redor.
- Curiosidade.
- Ahhhh tá apaixonadinha - brincou Marcelo, namorado da Bruna enquanto tirava uma parte do cabelo loiro do olho.
- Vá a merda meu! - respondeu Ju.
- Tá pensando no seu magrelo?
- Talvez...e não fala assim dele.
- Por que não? Ele é magrelo mesmo, todo mundo sabe disso.
- Eu sei, mas ele é o meu magrelo e só eu posso falar assim dele! E vão se ferrar vocês - disse Ju enquanto todos à mesa riam.
- Caralho, cadê essas esfihas? - falou a outra Bruna.
- Pô tá vindo, tá vindo.

O garçom trouxe vários pratos redondos repletos de esfihas, alguns kibes e copos de refrigerante. Questionou apenas se estava tudo de acordo com o pedido que foi realizado e logo se retirou, enquanto as pessoas ao redor puxavam e brigavam pelas esfihas no prato, separando conforme o que fora pedido minutos atrás. Os garçons olharam assustados quando escutaram um grito:

- Nããão bebe! Nós temos que brindar! - disse Júlio
- Pô, beber sem brindar, são sete anos sem trepar! - disse Marcelo enquanto a galera ria. Levantaram os copos ao centro da mesa, colidiram e gritaram alto: Feliz Aniversário Juuu! O gerente olhou feio, mas eles não se importaram enquanto comiam as esfihas. Ju estava cortando a sua, quando olhou novamente o celular e sorriu. Finalmente o tempo colaborou e deu o horário que queria ver. Ela limpou as mãos num guardanapo e discou o número que já havia decorado.

Seu magrelo também tinha que estar lá.

-------------------------

- Eu odeio esse sistema, meu Deus. – murmurou Dan enquanto olhava o sistema de ponto eletrônico da empresa. Seu colega de trabalho, Dennis, estava ocupado com um treinamento e ele ficara com a responsabilidade de ajustar alguns horários incorretos. A sala estava cheia, sua chefe ao lado, de olho para ver se seu trabalho estava fluindo. O relógio estava quase atingindo o horário da liberdade, mas ele sabia que não podia sair sem terminar aquilo ou perderia alguns pontos. De repente o silêncio além dos toques no teclado foi quebrado por um ringtone e Dan levantou correndo para atender o celular que estava carregando.

- Oi Ju.
- Oi amorzinhooo!
- Eu já falei pra você parar, mas que merda hein. - ela ria.
- Então, estamos aqui comendo esfiha..
- Estamos?
- É, tá eu, a Buh, o Marcelo, a Bruninha, o Júlio... a gente está comemorando o meu aniversário. - Dan engoliu seco. Aniversário? P*rra, é mesmo. Ele nem lembrara. Olhou o sistema de ponto, olhou o relógio e viu que não ia rolar. Mas tudo bem, eles nem eram namorados mesmo; não havia obrigação alguma de estar lá. Seu pensamento egoísta ponderou tudo isso rapidamente e disse:
- Olha Ju, parabéns mesmo, mas não vai dar pra eu aparecer aí. Tenho algumas coisas ainda no trabalho pra resolver.
- Ahhhh ok. - ela se esforçou o máximo para não mostrar a insatisfação. Até que se saiu bem.
- A gente pode se ver amanhã?
- Não, não. Eu quero te ver hoje. Que horas você acha que vai sair?
- Ah, acho que umas cinco e meia.
- Ok. Eu te encontro no ponto então?
- Não, Ju, não precisa! Aproveita aí seu aniversário com o pessoal.
- Eu nem gosto de esfiha. Cinco e meia no ponto, beijo me liga. - e ela desligou. Por alguns instantes, Dan sentiu uma espécie de culpa, um peso por ter esquecido desta data, mas esse torpor logo passou quando sua chefa perguntou:

- E as folhas de ponto, já estão ok?

-------------------------

Dan olhou o celular preocupado com o horário, pois precisava chegar cedo na faculdade e xerocar alguns textos. De repente, ao olhar o ponto de ônibus, deixou a preocupação de lado vendo o sorriso dela, estampado, sem demonstrar qualquer irritação por ele não ter ido participar da festinha de aniversário. Ju estava linda, como sempre, e o aguardando. Ele bateu o olho na hora antes de jogar o celular no bolso e abraça-la forte, sentindo aquele cheiro gostoso invadir suas narinas fazendo com que a faculdade deixasse de ser algo importante.

- Feliz Aniversário Ju - e beijou seu pescoço, pra depois deixar sua boca se perder na dela enquanto o tempo se perdia neles.



Continua...


Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Ou não.


Domingo, Novembro 09, 2008
8:10 PM

Nota do Autor: Recomendo a leitura de baixo para cima visto que os textos são complementares.



Capítulo Cinco: Amorzinho.


Meados de Março, 2007 - Centro da cidade de São Paulo .

Ainda que o prédio fosse cheio de computadores, telefones, ramais e tantos outros itens óbvios para uma central de atendimento, os responsáveis ao projetar o prédio foram bondosos. No segundo andar estava localizado o espaço para os funcionários comerem, com a possibilidade de esquentar a comida em um dos vários microondas, tomar um pseudo-café na máquina, comprar um lanche ou ir até o lugar arejado voltado aos fumantes, mas que continha uma bela vista para o centro de São Paulo, especialmente ao Mosteiro. Tal espaço era uma contradição com o cinza habitual da cidade, do próprio prédio e das vidas cotidianas. Havia verde, flores e mesinhas semelhantes à de um parque. Lógico que de uma maneira mais modesta, mas era ali que os funcionários se digladiavam para ter um lugar. Era impossível mensurar quantas vezes um funcionário perdeu a hora por ficar sentado num banco, tomando Sol enquanto a vida agitada de São Paulo voava intensamente.

Maria Beatriz, mais conhecida como Bia, fumava um cigarro, conversando animadamente com Priscila sobre um treinamento que ela tinha acabado de ministrar.

- Então Pri, aí eu falei da nova promoção no final e eles adoraram!
- Ahhh que legal Bia. Eu vou ter que ministrar esse mesmo treinamento agora de tarde, acho que vou fazer a mesma coisa.
- E o que você está fazendo aqui ainda essa hora Ju?

Ela estava sentada próxima, lendo uma apostila estranha:

- Estou estudando ué. - e fechou o semblante.
- Bia, olha só a Ju. Vai falar que ela não está fazendo o mesmo bico que o Dani faz quando não quer papo.
- Caralho, é mesmo! - concordou Bia - Mas peraí... Por que a Ju faria o mesmo bico que o Dani? Não vá me dizer que você está pegando aquele magrelo Ju!
Ela riu alto e concordou com a cabeça.
- Eu estou esperando ele, inclusive.
- Putaqueopariu! Ninguém me conta essas coisas! Faz tempo?
- Tá pra fazer dois meses.
- Carambaaaa! E você nem me falou nada Pri?
- Você sabe que o Dani não gosta de comentar sua vida pessoal... - e sorriu.
- Nossa preciso brigar com ele.
- Nãããão, não briga com o meu amorzinho. - disse Ju, complacente.
- Como que é? - indagou Bia enquanto Pri gargalhava alto, como só ela sabia fazer.
- Meu amorzinho!
- Ele sabe que você o chama de amorzinho?
- Não, não. Ainda não.
- Ele vai te matar! - respondeu Bia dando risada - Nossa agora sim eu vou poder tirar sarro dele. Vou subir agora mesmo.
- Fala pra ele descer logo ok? Não agüento mais estudar essa apostila estúpida pra comissárias de bordo.
- Vou falar, vou falar! - Bia se levantou rindo e foi até o elevador, deixando Pri e Ju conversando sobre a vida, sobre amores, sexo e rock´n roll.

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Dan estava sentado estudando um material com um fone de ouvido e um olho no relógio do Windows. Nada de dar 16h40min. O tempo parecia se arrastar e ele já estava na terceira ou quarta leitura, mas não sabia mais o que fazer para enganar o tempo e a sua chefe no PC ao lado. Voltou ao slide um e deixou os olhos correrem por cada detalhe daquela operadora de celular. O som estava alto, não tão alto como ele gostaria, mas o suficiente para não prestar atenção na conversa fútil alheia. Sua chefe levantou para ir ao banheiro e do nada, Bia entrou na sala:

- Oooooooooiiiiiiiiiii amorzinhoooooo! - Mesmo com o som alto ele conseguiu ouvir tal disparate.
- Amorzinho o caralho. Que porra é essa Maria Beatriz? Tá ficando louca?
- Sabe amorzinho, eu estava lá no segundo andar fumando e tive uma conversa interessante com uma pessoa.
- Ah...
- Ahhhh? Ahh porra nenhuma! Você nem me fala nada! Desde quando vocês estão se pegando?
- Sei lá. Um ou dois meses.
- Hummm espertinho! Ela é bonita pra caramba hein.
- Eu sei.
- Vê se dessa vez faz dar certo.
- Com ela me chamando de amorzinho assim? Vai dar beeeem certo.

Bia riu e sentou-se em frente ao seu PC enquanto a chefe voltava. O tempo resolveu ser bondoso e acelerou um pouco. Assim que o relógio virou de 39 para 40, às 16hs, Dan bateu seu ponto eletrônico, despediu-se e rumou ao segundo andar.

Ela estava lá, sentada ouvindo algo e lendo uma apostila. Aquela apostila que ela sempre carregava e aquela apostila que ele escutou a mãe dela comentar quando ele ligou para o número errado. Pensou se deveria deixá-la estudando ou se deveria chamá-la, mas ela foi mais rápida e quando o percebeu, veio em sua direção.

- Vamos Dan?
- Sim. Você vai até o ponto comigo?
- Lógico. Te esperei pra isso.
- Você sabe que não precisa me esperar todo dia né?
- Sei. Eu espero porque eu quero.
- Ok.

Ele não entendia isso, mas foram juntos até o ponto, aguardar o ônibus que o levaria até a Cidade Universitária. Ela começou a contar as diabruras e brincadeiras que acontecera em seu dia e Dan não resistia. Ria e a puxava pra perto, pra causar o silêncio com beijos ardentes, sentindo seu corpo bem próximo ao dela. Vários ônibus passaram enquanto se incendiavam. Ju o olhava sorrindo, com aquele sorriso maravilhoso e ele não parecia entender o que acontecia ali. Lembrou do que a Bia falara:

- Que história é essa de amorzinho?
- Ahhh a Bia te falou! Sabia! Que filha da puta!
- Você não respondeu...
- Ahhh Dan... Você é o meu amorzinho lindinho! - disse Ju com uma voz carregada, quase infantil.
- Ah vá a merda - e eles riram, se beijaram e deixaram mais ônibus passarem.


Eles só pararam de se beijar quando o sino da São Bento bateu alto, indicando que já eram 18 horas e o momento para cada um seguir seu caminho. Ju deu-lhe mais um beijo e Dan subiu para o ônibus.

Ela nem percebeu enquanto caminhava rumo ao metrô que ele ficara em pé acompanhando-a com o olhar, fazendo o tal bico, até ela se tornar um pontinho indistinguível na multidão.


Continua...

Domingo, Novembro 02, 2008
9:24 PM

Nota do Autor: Recomendo a leitura de baixo para cima visto que os textos são complementares.


Capítulo Quatro: A Loucura


Início de Março, 2007. Estação da Luz, São Paulo

Os trens passavam e sumiam da vista diante da plataforma lotada. Estação da Luz, 18 horas, São Paulo. Um mar de gente se acotovelava para entrar no trem que parou impedindo os que estavam dentro de sair. É o paradoxo mais burro do ser humano, o mais instintivo e o mais engraçado pra quem vê de fora: as pessoas brigam para entrar sem deixar as outras saírem. A ânsia pela oportunidade em arrumar um lugar sentado é tão forte que há uma disputa territorial em cena, quando as portas se abrem e a multidão avança, como guerreiros de escudos em riste, lutando por cada milímetro, tentando entrar a qualquer custo. Os trens vêm e vão, mas mesmo assim a multidão parece não esgotar; deve haver um suprimento infinito de pessoas brotando da escada rolante, rumo às estações dos municípios satélites de São Paulo. E nada disso importa para o casal que se pega sentado num banco de madeira velho, rabiscado, no canto da estação. Dan e Ju se beijam como se não houvesse pressa, prazo ou tempo ruim; como se ele não tivesse que ter ido à USP assistir uma ótima aula ou ela ido para casa, já que sua mãe não cansa de ligar em seu celular, preocupada. Um ou outro transeunte lança um olhar curioso e entra na fila para ser esmagado no trem.
Imersos nesse caos pacífico, ele resolveu falar. A situação não estava boa, Dan sabia o que ia acontecer pois não era a primeira vez. Já estava cansado de ter relacionamentos assim e ver a pessoa sofrer. Já havia decidido antes, que era melhor avisar antes que ela se envolvesse demais. Foi assim com a dançarina do Ventre, foi assim com a Paloma, foi assim com a Carina e ele não queria que tudo se repetisse. Era justo. Não era seu costume fazer isso mas mudar sempre faz bem. Dan segurou suas mãos, encarou seu olhar e disse as palavras que nunca terminam bem:

- Nós precisamos conversar. - Ju olhou sobressaltada, já prevendo algo ruim, como se esperava por isso a qualquer minuto.
- Pode falar Dan...
- Eu tenho um problema muito sério. Não, eu não tenho dúvidas quanto à minha sexualidade. - brincou para quebrar o gelo.
- Bom, eu tenho - e Ju riu alto assim como Dan.
- Eu preciso te avisar antes que seja tarde demais, antes que você esteja envolvida pois eu não quero ver ninguém sofrer por minha causa.
- Tudo bem... Pode falar.
- Eu não sei bem o que acontece comigo, mas meus sentimentos são instáveis demais. Eu demoro a me apegar e tem vez que simplesmente acordo achando que não gosto mais, que não quero mais; como se enjoasse da pessoa, como se qualquer proximidade com ela me desse asco... Como se eu a quisesse cada vez mais longe, e não mais perto.
- Humm
- Parece uma loucura, eu diria até que é. Geralmente acontece uma vez por mês e se eu dou ouvidos a ela, já era. Não consigo mais ficar com quem eu estava. As coisas mudam, perdem o sentido, perdem a graça e eu simplesmente vou embora. Tem vez que eu aviso, tem vez que não. É chato pra caralh*o, mas acho que faço isso pra não me machucar já que o amor é uma merda.
- E por que você está me dizendo isso Dan?
- Porque você é uma pessoa legal e eu não quero te deixar mal.
- Você quer terminar comigo, é isso?
- Não, não! Só estou te avisando que isso pode acontecer.
- Nossa que c*uzão!
- É, eu sei.
- Você está me preparando para o pior... acho que você sabe que vai me largar em breve.
- Não sei... mas isso geralmente acontece.
- Okay. Eu vou me preparar.
- Mas não fica mal ok? Adoro seu sorriso.
- É difícil sorrir após escutar isso... - ele tentou beijá-la, mas Ju se afastou pensativa.
- Desculpe, só quero te proteger...
- Acho que vou embora, tá tarde - apontando para o relógio digital.
- Não, não, fica um pouquinho mais.
- Caralh*o Dan, decida-se.
- Hoje eu quero que você fique. O problema será sempre o amanhã.
- E eu que me ferro...
- ... Vamos combinar assim. Se o próximo trem for recolhido, você fica. Se ele vier normal, com destino à Rio Grande da Serra eu deixo você ir.
- Tudo bem. Levanta então e vamos pra plataforma.

Ju pegou sua bolsa e foi seguida por Dan com sua roupa social e a mochila nas costas. A plataforma estava um pouco mais vazia e ela ficou de braços cruzados olhando na direção em que o trem vinha. Dan tentou se aproximar mas ela estava chateada. Era um preço a se pagar pela verdade... Talvez fosse melhor ela ficar assim agora do que se machucar pra valer depois. Ele repousou a cabeça em seu ombro e ela fingiu que não percebeu. A estação estava escura como sempre, alguns ratinhos corriam pelos trilhos aproveitando os momentos de sossego entre um ou outro trem. De repente, um som de aviso chamou a atenção de todos e a voz metalizada iniciou a frase. Antes mesmo de perceber, Dan comemorou, acreditando ser a confirmação de sua vitória.

- Atenção usuários. É proibido fumar nos trens e nas estações da CPTM.

Ju riu alto da decepção e ainda tirou sarro:

- Toma trouxa!
Mas a voz continuou:

- Próximo trem a dar entrada na plataforma Um não prestará serviço. Repetindo: próximo trem a dar entrada na plataforma de número Um não prestará serviço. Pedimos a todos que não embarquem.

Dan já estava rindo e puxando-a para um canto da plataforma, aproveitando a discrição que a multidão insatisfeita causava e disse:

- Eu sempre ganho.
- Droga!

E se beijaram novamente enquanto a multidão estúpida, brigava para entrar no trem que seria recolhido. Pior que a vida é assim mesmo: uns brigam pra ir embora, outros pra ficar.


Continua...


Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Ou não.

Sábado, Outubro 25, 2008
2:55 AM

Nota do Autor: Recomendo a leitura de baixo para cima visto que os textos são complementares.



Capítulo 3: Cala a boca e...

Dezoito de Fevereiro, 2007 - Em algum lugar da Zona Norte de São Paulo.

Dan acordou mas seus olhos se recusaram a abrir. O inchaço diminuíra, mas sua região ocular ainda parecia injetada em sua face, dois globos vermelhos repletos de remela e outros elementos estranhos. Já era o terceiro atestado que pegava devido à maldita conjuntivite hemorrágica viral que transformou seus olhos em círculos vítreos de sangue e o afastou de qualquer convívio social – que já não era muito. Neste exato momento, às quinze horas da tarde, o Jota, outro instrutor, deveria estar encerrando o treinamento que Dan supostamente iria brilhar; provavelmente seus amigos do trabalho estavam reunidos tomando um café e tudo o que Dan tinha era um miojo. Se conseguisse levantar e enxergar. Abriu os olhos com esforço e deu início ao ritual de sua doença: limpeza com algodão, compressa com soro gelado e colírio. Sentiu a íris queimar com uma gota que caiu no lugar errado e lágrimas brotaram na defensiva. Mais um sábado que ficaria em casa sem ter o que fazer. Pensou na Ju e ficou chateado ao lembrar que ela rejeitara sair com ele no fim de semana. Tudo bem que ele parecia o Ciclope do X-Men, mas a solidão estava apertando já que fazia meses que fora largado pela Gabi. Dan se remexeu na cama ao pensar que passaria o carnaval sozinho, remelento, parecendo um drogado e sem qualquer diversão.

Resolveu provocá-la e enviou um torpedo. Não demorou muito para a mensagem chegar e ele sorriu. Uma das coisas que ele já gostava nela era justamente isso: alguém com crédito pra responder seus torpedos. Dan respondeu sugerindo um cinema e começaram a conversar. Torpedo vai, torpedo vem e ele levantou as sobrancelhas, esfregou o olho sem poder quando seu cérebro processou a mensagem que leu:

“Dan... a primeira koisa q vou falar qdo t ver é..
Kla a bok e me bja!!!!”


Ele riu. Olhou os caracteres com sua vista embaçada e não sabia o que responder. Dan não estava acostumado com esse tipo de situação já que era pago para responder tudo, o tempo todo. Resolveu enviar uma mensagem dizendo o quanto ela era direta e conseguiu a convencer, com esforço, de saírem na próxima segunda-feira, após o trabalho. Mas mesmo após convencê-la, ele ficou pensando se ela transformaria em ação as palavras digitadas ou se tudo permaneceria no mundo celular...

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Vinte de Fevereiro, 2007 – Shopping Metrô Tatuapé, São Paulo.

Ju saiu do metrô e se perdeu na multidão. Em Mauá não tinha tanta gente assim indo ao shopping, principalmente no início do Carnaval. Ela olhou no celular enquanto subia a escada rolante e viu que estava atrasada. Será que ele ia esperar? – pensou. Subiu os últimos degraus da escada rolante com passos largos e seguiu o fluxo da multidão em direção às catracas. Enquanto caminhava, Ju o procurou com os olhos no ponto de encontro e sentiu o coração lentamente esfriar. Ele não estava lá. Aparentemente. Merda! Foi se aproximando sentindo a ansiedade aumentar. De repente, explodiu involuntariamente em um sorriso. Dan estava lá, com um fone de ouvido, óculos escuros e provavelmente a procurando por trás das lentes espelhadas. Ao percebê-la, tirou o óculos e ficou olhando para ela. Ele estava diferente, com os olhos inchados e bem vermelhos. Mas era o Dan. Dela. Para ela. Ela se aproximou com seu melhor sorriso e disse:
- Oi!

Dan sorriu e a puxou para perto, transformando um mero torpedo em um beijo rápido e gostoso. Saíram da multidão andando de mãos dadas, como um casal velho e se lançaram no meio das pessoas que entupiam os corredores do shopping. Foram conversando, dando risadas das besteiras que falavam enquanto ele a conduzia para o último andar, buscando a bilheteria. Obviamente Dan havia planejado tudo com antecedência: onde ir, horários, o que assistir etc. Bastava guiá-la para isso evitando contestações e que o plano desse certo. Nada maquiavélico....
Ela mal percebeu quando ele a olhou, por trás dos óculos, avaliando-a. Ficou admirado diante da beleza e gostou de seu carisma. Ju falava bem, dava risada alto, dizia besteiras, coisas diferentes e Dan se sentia confortável.
Compraram ingressos para assistir À Procura da Felicidade e entraram na sessão. Ela escolheu um lugar no meio e sofreram ao perceber que a porcaria do braço da cadeira não levantava. Mesmo diante deste desafio, se aninharam e assistiram ao filme juntos, com intervalos onde suas bocas se encontravam e exploravam com mais calma o beijo mútuo. Ju sorria, Dan pensava e nenhum deles imaginava, naquele momento, até onde aquele beijo rápido dado no metrô os levaria.

O filme passou mais rápido do que deveria e eles saíram do cinema. A conversa fluía bem, de maneira divertida e de repente, ela parou. Dan fez menção de ir, mas Ju disse:

- Não posso ir por aí.
- Ué. Por que não?
- Porque é o mesmo caminho que eu vim.
- E daí?
- E daí que eu nunca volto pelo mesmo caminho que vim.
- Ah fala sério! Vamo logo.
- Não Dan, eu não vou.
- Você não está me zoando? Que bizarro!
- É sério, vamos por outro caminho.

E ela o puxou para outro lugar. Dan ainda estava um tanto quanto estarrecido diante desta peculiaridade, mas ficou contente quando sentaram em um banco perto da enorme loja de tênis.

- Dan, posso te dizer uma coisa?
- Hum... pode.
- Meu... que bocão enorme você tem! – e deu risada, aquela risada alta que as pessoas param e sentem falta.
- Eu? Bocão? Fala sério!
- Te juro. Achei que você ia me engolir no cinema.
- Você que tem um bocão. Olha isso! – apontando para o sorriso.
- O pessoal da onde eu estudei fala que eu tenho a boca do Coringa... mas eu não concordo - Dan mal conseguiu responder rindo:
- Faz sentido! Olha até onde chega seu sorriso!
- Ah cala a boca. Meu sorriso é lindo. – e eles se beijaram novamente, sem pressa, sem culpa, sem pretensão e com vontade.

Voltaram a andar. Em um determinado momento foram reconhecidos por uma outra funcionária do local onde trabalhavam, mas não foi tão estranho quanto poderia ser. As pessoas sempre insistiam em criticar, especialmente pelo fato que Dan possuía um cargo diferenciado. Justamente em um destes determinados momentos, falando sobre paixões, amores e gostos, que ela falou:

- Por isso que eu sempre digo: o amor é uma merda.

Ele concordou pensando na Gabi. Ela disse pensando no namoro de longa data que havia terminado. E riram para se enganar...
O dia terminou e cada um dirigiu-se a seu lar. Ju estava admirada, pois tudo dera certo e quem sabe ele realmente ficasse com ela um tempo? Dan dormiu na lotação ouvindo música para justamente não ter que pensar.

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Contudo, o destino, como um belo filha-da-puta, agendou um momento no futuro de ambos e resolveu mostrar na prática o poder deste frase dita e gravada no tempo

Ela tinha razão: o amor pode ser mesmo uma grande e fedida merda.


Só que nenhum deles sentiu este fedor no ar então quem se importa?
A única coisa que realmente importava ali era calar a boca e beijar.

E assim foi.


Continua...




Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Ou não.

Segunda-feira, Outubro 20, 2008
12:11 AM

Nota do Autor: Recomendo a leitura de baixo para cima visto que os textos são complementares.


Capítulo 2: Será que pega?

Quinze de Fevereiro, 2007 - Centro de São Paulo.

O treinamento continuava. Ainda que com uma turma diferente a cada dia, ele permanecia indo até o prédio da Brigadeiro ministrar aquele conteúdo. O nervosismo do primeiro dia já não fazia mais sentido e as palavras fluíam mais naturalmente. Dan saiu do metrô ouvindo rock´n roll, tomou um capuccino num boteco e voltou a andar. Chegou rápido no prédio, passou na recepção para liberar sua entrada e foi arrumar as cadeiras da sala. Tudo pertencente à rotina que foi quebrada com a primeira pessoa a entrar:
- Bom dia Dan! Nossa você está com conjuntivite?
- Não que eu saiba. Por quê?
- Seu olho esquerdo está muito vermelho.

Ele saiu momentaneamente da sala e foi ao banheiro. Acendeu a luz e quando olhou no espelho viu que um olho era maior que o outro e estava vermelho. Sua memória voltou à noite anterior quando sua mãe comentou para tomar cuidado pois seu padrasto estava com conjuntivite. Ele agradeceu com xingamentos diversos. Era só o que faltava...

Após o treinamento ele passou no pronto-socorro do convênio e o médico em seus cabelos brancos mal o examinou quando escreveu na receita médica o nome de um colírio, os três dias de afastamento e o dispensou com um aceno na cabeça. O olho coçava e ele não sabia o que fazer pra aliviar. Comprou os medicamentos e foi ao serviço relatar o acontecido.
Quando entrou na sala, sua chefe olhou pra ele e disse, carinhosamente:
- O que você está fazendo aqui com o olho desse jeito?
- Ah nem está tão ruim assim. Dá pra trabalhar.
- Pode ir embora. Cuide-se neste fim de semana e se você não estiver bem na segunda nem precisa vir. A gente arruma alguém pra ministrar o treinamento em seu lugar.

Ele saiu triste. Havia uma responsabilidade e a chance de sucesso se aquele treinamento fosse bem aceito por todos, e por causa do maldito padrasto, ele ficaria em casa enquanto outro aproveitava a glória.
As coisas estavam nebulosas mas mesmo assim ele riu, já em casa, quando seu celular vibrou indicando um torpedo:

“Fikei sabendu q vc me trokou por outra ju...
uma tal de juvit´s!!!
bjomeliga”


Dan evocou imagens da memória para lembrar do rosto da tal Ju. Já fazia alguns dias que eles trocavam mensagens, tanto no celular quanto no msn, e ela parecia legal. Engraçada. Seu jeito doido o fazia rir e ele, tão acostumando em exercer este papel, ficou fascinado com a possibilidade de ficar com alguém assim. Mas agora por causa desta merda de doença teria que ficar em casa. Repouso. Compressa de gelo. Colírio. E solidão.

O fim de semana passou e a conjuntivite se arrastou para o outro olho. Pela manhã da terça-feira seus olhos pareciam injetados e pintados de vermelho-sangue. Obviamente o médico lhe dispensou por toda a semana e ele foi mais uma vez entregar o atestado no trabalho. Agora o óculos escuros já era algo que fazia parte de suas vestimentas para evitar olhares inquisidores ou suspeita de uso de drogas.
O trajeto até o prédio foi tranqüilo e ainda que o segurança quisesse barrá-lo por estar de óculos escuros, concordou amistosamente que ele os usasse pois a situação era grave. A fila na área médica estava curta e em poucos minutos ele já cruzava a saída. Olhou para o grupinho de pessoas conversando em frente o prédio e viu que ela estava lá. A Ju, conversando com uma série de pessoas. Sua anti-socialidade falou mais forte e ele optou por ir embora sem falar nada. Não estava nas condições perfeitas para uma abordagem interessante. De repente escutou:
- Dan! Hey! – ele parou e viu uma ruivinha com cara de desenho animado o chamando. – A Ju está aqui, vem falar com ela. – Pronto, todo mundo já sabia das mensagens que eles estavam trocando. Ele foi até o círculo de pessoas, cumprimentou todos a distância e deu risada da reação quando tirou o óculos escuros.
- Caralho Dan! Você parece possuído! – e mais coisas do gênero foram ditas. Logo o assunto se encerrou e as pessoas foram embora. Ele olhou a Juliana ir em direção ao metrô sozinha, segurando uma espécie de apostila. Como era a mesma direção, ele foi atrás dela e a observou atentamente. Ela era bonita. O cabelo um pouco curto, com mechas loiras. Ela estava indo para a escada rolante quando ele foi furtivamente e puxou seu caderno.
- Que porra é essa? Ah é você Dan. Caralho meu que susto! – e deu risada. Eles começaram a conversar, ela informou que ia para a estação Luz e ele disse que a acompanharia pois era o mesmo sentido que ele tomaria para casa.

Ainda que fossem quatro horas da tarde, o vagão estava cheio. Eles ficaram em pé perto da porta conversando. Algumas pessoas o olhavam com interrogações, afinal, o que fazia um jovem de óculos escuros dentro do metrô? Mas nada disso parecia importar. Eles conversavam e riam, gostando da companhia um do outro. A velocidade do metrô já estava em declínio quando ele perguntou:

- Será que se eu chegar mais perto você pega conjuntivite?
- Ah acho que não... – e ela mal terminou a frase quando sentiu seus lábios serem tocados. Ele realmente havia se aproximado e agora suas bocas se exploravam, suavemente, com o trem diminuindo suas velocidades e a vida acelerando a dela. Foi um beijo rápido. Ambos estavam sorrindo e ela mencionou que precisava sair. Ela se foi enquanto Dan permanecia a observando subir as escadas entre a porta que se fechava do trem. Ele ficou contente ao perceber, no meio do borrão que tudo virou com a aceleração do trem, que ela estava sorrindo.

E ele também.

Continua....


Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Ou não.

Domingo, Outubro 19, 2008
10:34 PM

Capítulo Um: A Ponte




05 de Fevereiro, 2007. Rua Brigadeiro Luiz Antônio, São Paulo.

Ele abriu a porta e empalideceu instantaneamente. Sua mão, já levemente molhada pelo suor ansioso, intensificou-se. Seus olhos percorreram a sala de número 07 e não havia nada. Nenhuma cadeira, nenhum equipamento dos que ele havia reservado. Nem sinal. Andou pela sala em desespero, rindo histericamente, procurando alguma passagem secreta ou um depósito. Sentou-se na murada da janela e discou um número no celular sem pensar. Um toque. Era cedo ainda. Dois toques. Talvez ela não atendesse. Três toques:
- Oi Dani! - disse sua chefe.
- Oi Ka. Preciso de ajuda.
- Diga. O que eu posso fazer para te ajudar?
- Hummm. Que tal vinte e cinco cadeiras, um projetor multimídia, uma CPU e caixas de som? Caso contrário essa porra* de treinamento não vai dar certo.
- Calma Dani. Eu já vou ligar para a Raquel e para o Jorge e descobrir o que aconteceu.
- Ok.
- Dê uma olhada no material impresso enquanto isso ok? Você sabe muito bem que esse treinamento tem que fazer sucesso. - e desligou. Ele sabia. Sempre soube. As pessoas comentavam como se fosse algo mágico, brigavam para se inscrever, acreditam que esse treinamento podia solucionar todos os problemas. “A Ponte” . O treinamento que mais fez sucesso durante anos e que agora, pela primeira vez, saía das mãos de sua chefa e virava responsabilidade dele. Naquela sala vazia, que em alguns minutos estaria cheia e ele não sabia o que fazer, logo seria seu palco, o momento de mostrar que tinha muito potencial. Era seu show.

Sentou na murada de novo, ligou o mp3 do seu Nokia e tentou não pensar na ex quando o Camelo cantou: “abre os teus armários eu estou a te esperar...”


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Em algum lugar entre Mauá e São Paulo

O trem estava cheio. Ainda que ela estivesse sentada, a multidão sacolejava com os movimentos bruscos ou na harmonia suave da locomotiva. Um vendedor gritava sua promoção de chocolates duvidosos mas ela não ouvia graças aos fones de ouvido sintonizados na Kiss Fm. Demorou alguns segundos para perceber que o celular estava vibrando além do habitual:
- Alô
- Oi Ju!
- Oi Pretããããão. Como você tá cara?
- Tô bem Ju. Meu, não é para ir lá até o prédio da São Bento hoje. Tem treinamento no prédio da Brigadeiro.
- Puta merda! Como faz pra chegar lá?
- A equipe toda vai se encontrar no metrô São Joaquim.
- Beleza. Te vejo lá.
- Ok.
- Beijomeliga - e o som da rádio voltou, com ela sorrindo ao pensar que não trabalharia e ia para um treinamento se divertir.

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De volta à Brigadeiro.

- 23, 24, 25... É acredito que serão suficientes. Muito obrigado Raquel.
- De nada Dan. Se precisar de algo é só ligar.

O projetor multimídia já exibia o título do treinamento, o tempo estava se esgotando, a turma, para agravar o nervosismo, estava atrasada mas já havia uma pessoa na sala.
- Fiquei sabendo que você e a Gabi não estão mais juntos... - ele assentiu. Não queria falar disso. Ninguém sente prazer em lembrar as rejeições, mas infelizmente algumas pessoas trocaram o bom-senso pela estupidez e insistem em abordar tais assuntos:
- Ela não era boa para você. Muito sacana. Você é um cara legal, bonzinho, merece uma pessoa diferente. Ela não presta. Você precisa ver o que ela fala de você na operação. Se eu não lhe conhecesse até estranharia. - Ele sorriu:
- E quem disse que você me conhece Bruna? - A jovem deu risada e ele suspirou aliviado enquanto as pessoas finalmente entravam na sala. Lentamente foram se acomodando, alguns paravam para o cumprimentar. O supervisor Alex, vulgo Pretão, se desculpou, assumiu o erro e desejou-lhe boa sorte. Mais um.

As cadeiras estavam dispostas pelas paredes, formando um U e ele se posicionou no centro, sorriu diante dos olhos inquisidores e curiosos; gravou detalhes, ao piscar e registrar uma foto mental, como aquele jovem que bocejava e a menina de jaqueta rosa que estava com a mão pousada na perna do colega ao lado.

- Bom Dia! Ou melhor, boa tarde pra vocês seus atrasados! - a turma reagiu como ele esperava, se alvoroçando diante da acusação injusta e ele aproveitou a agitação para dizer - Pessoas, já que vocês estão aí sentados, bravos, alguns sonolentos, nós precisamos se mexer um pouco para melhorar o astral - algumas pessoas cruzaram os braços enquanto outros já se empertigavam na cadeira - Por favor, todos em pé e eu preciso de voluntários comigo no centro da sala.

Três corajosos - ou exibicionistas? - foram e sorriram diante de todos.

- Os demais fechem os olhos...eu irei colocar uma música e quero que vocês deixem-se levar pelo som, pelo ritmo, pela música.. Reflitam a respeito pois ela é sensacional e sem dúvida marcou a vida de todos vocês. Deixem nossos voluntários conduzirem cada um de vocês nesse som. Deixem-se levar. Dancem. Soltem energia pois hoje será um dia agitado - e enquanto falava, dirigiu-se silenciosamente até o PC, deu enter e conseguiu ouvir, no meio dos risos, a frase inicial da música reconhecida por todos:

- Now first I was afraid, I was petrified...
Houve gritinhos de prazer; eles abriram os olhos e dançavam, batiam palmas no ritmo enquanto ele fotografava e os estimulava, visando a integração da equipe. O supervisor foi até ao centro e imitou a dancinha do Pulp Fiction para delírio dos participantes. Outro jovem foi e fez uma dança estranha, meio russa, e arrancou gargalhadas. A jovem de jaqueta rosa fez um passe de dança com as pernas e os braços, passando um por cima do outro e dali organizaram um trenzinho que percorreu a sala. Com certeza os rapazes da vigilância estavam rindo da cena filmada pela câmera de segurança mas quem se importava?
Quando a música acabou houve um muxoxo e todos estavam agitados, sorrindo e ele partiu para o assunto do treinamento. Falou de queijo, mudanças, neurolinguística, limões, vendas e brilhou. Não passava na cabeça de nenhum dos presentes que era a primeira vez que ele ministrava tal treinamento. As horas voaram, eles pararam pra comer o coffee break organizado pela empresa e voltaram a bater papo sobre características importantes para ser um bom profissional.
Os aplausos vieram entusiasmados e sinceros no final e ele deixou os Titãs cantarem que era preciso saber viver enquanto entregava o formulário para eles avaliarem a apresentação.

Pouco a pouco as pessoas se despediram, agradeciam enquanto entregavam as folhas preenchidas e ele finalmente pôde sentar, ao ver-se só, e respirar. O mp3 de seu Nokia 6265 começou a tocar para ele relaxar enquanto lia as avaliações. Ficou contente com o resultado conquistado e deu risada quando ele leu uma, a que ele escolheu para ficar por cima quando sua chefe visse, a da menina da jaqueta rosa que dizia:

Dan, você é tudo! Te adoro daqui até o infinito!!! Beijomeliga!


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Mauá, poucas horas depois.


Ela estava mexendo na internet quando sua mãe gritou:

- Ju! Acho que essa mensagem é para você.

Desceu as escadas e pegou o celular que exibia:

Diz que me adora, pede pra ligar mas não deixa o número?
Assim fica complicado


Ela riu alto. Mesmo sem reconhecer o número tinha uma boa idéia de quem poderia ter enviado aquela mensagem. Pensou um pouco, deu risada de novo e respondeu:

Kmplikdu?
Kmplikdu nada, no mínimo eh kuriosu.
Beijomeliga.
Ju !



Continua...


Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Ou não.

Terça-feira, Outubro 07, 2008
12:40 AM

Prólogo.

Esse blog contará uma história de amor. Talvez não tão clichê como as de Hollywood, já que ele será temperado com a verdade distante do glamour cinematográfico. Infelizmente, e eu já vou estragar tudo contando, a história não tem um final feliz. Na verdade, esse receptáculo de textos será uma tentativa estúpida de colocar um final. Para mim.
Uma das coisas injustas do amor é que ele termina em tempos diferentes para os envolvidos - ou ele termina igual, mas as pessoas encenam que acabou em momentos diferentes. Não sei. A questão é que estou cercado de momentos fotografados em minha mente que me invadem ao fechar os olhos, ao sentir um perfume, ao ouvir uma música; memórias e mais memórias que são deliciosas e me machucam lentamente com suas pontas agudas. E eu quero que elas percam seu significado. Quero deixar pra trás, quero apagar o fogo que me incendeia ao pensar em tudo. Quero fazer o mesmo que você fez. Quero deixar de sentir o aperto que sinto ao pensar nas inúmeras vezes em que você disse a frase, a maldita frase que ecoa e ecoa por mim, repetindo num infinito dolorido. Vejo a cena lentamente, em preto-e-branco ou em cores: você dizendo com sua boca majestosa, as palavras que viraram a minha maldição e provavelmente estarão em minha lápide: quando tudo isso acabar, você será apenas uma ótima lembrança.

Como toda história de amor haverá momentos felizes. Talvez em maioria. Haverá brigas e coisas melosas. Discussões inúteis. Descrições de cenas que para você, leitor(?), parecerão comuns ou sem graça, mas que para mim tem um significado enorme. Talvez essa seja a descrição do amor: algo insosso pra quem vê de fora e extremamente saboroso pra quem vivencia. Haverá palavrões, cenas fortes, sexo, rock´n roll, verdades e mentiras. A tendência é que os textos sejam verídicos e sigam uma cronologia, mas toda verdade é regada no exagero e a literatura não pode fugir disso, muito menos eu.

Então boa leitura. Quem sabe vocês consigam entender como um amor tão real, que era áspero e doce ao mesmo tempo, foi jogado fora de maneira que não pode voltar e virou apenas uma ótima lembrança.

Pois eu nunca entendi.





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